Sábado, Julho 04, 2009

Deep-fried Mars


O twitter piscou: "Inscreva seu texto para o concurso de Jornalismo Literário da Bravo!", 1500 caracteres sobre a Susan Boyle. Hum. Nem dá 20 linhas, vai. Vou escrever, custa nada, e acabei de voltar da Escócia... Alguma coisa sobre essa gente escocesa eu acho que entendi. Revi o vídeo e, sem saber por onde começar, lembrei que uma vez eu estava na fila da sorveteria (!) em Saint Andrews (o único lugar que vendia jornal aos domingos...) e alguém comentava que o Deep-fried Mars, uma sobremesa escocesa horrível e deliciosa , era original da cidadezinha da Susan Boyle. Mandei o texto e... ganhei :)

"Uma das sobremesas típicas de Blackburn, cidadezinha da Escócia onde vive Susan Boyle, é o deep-fried Mars: uma espécie de chocolate Charge empanado e frito na mesma gordura do fish and chips. O doce só não é mais feio e mais gostoso do que o prato tradicional do país, o Haggis (miúdos de ovelhas espremidos em um chouriço pálido). Pode-se dizer que o sucesso de Susan Boyle - ainda é preciso explicar quem é ou o que fez Susan Boyle? - seguiu à risca as receitas da culinária escocesa: muitas caretas antes de um sorriso.

Pois atire uma barra de Mars quem não engasgou diante daquela mistura do queixo do Noel Rosa com os modos da Vovó Mafalda no Youtube. Entoando magistralmente I dreamed a dream, d' Os Miseráveis, e metida num salto sem jeito, a cantora de 48 anos estava fantasiada de contradição aristotélica no palco do programa Britain's Got Talent: uma separação litigiosa entre o "bom" e o "belo". Até então, "Simple Susan" (um dos muitos apelidos) era a ex-aluna do Edinburgh Acting School, uma senhora que gostava de ir ao teatro e à igreja. Temporã de nove irmãos, cuidava da mãe doente na companhia da gata Pebbles, "Pedrita". Nascida em 1º de abril de 1961, mais parecia uma mentira.

Susan pôs no bolso do vestido bege-ortodoxo o júri e a platéia. Levou às lágrimas gente como eu, você ou Demi Moore. Sua performance já é o vídeo mais popular da história da Internet.

Em Blackburn, nada mudou: se bobear, Simple Susan acabou de cochilar vendo TV, enquanto comia um deep-fried Mars."

Terça-feira, Junho 23, 2009

o amor é importante. porra


Eu fui a São Paulo para não esquecer. De São Paulo.


Sensibilidade, disposição e pesquisa: Mariana Quintanilha :)

Segunda-feira, Junho 15, 2009

a zona fantasma

Cuánto alegra comprobar que hay personas y sitios que siempre están, aunque permanezcan lejos o parezcan perdidos. Seguramente sólo se pierde de veras lo que uno olvida o rechaza, lo que prefiere borrar y ya no quiere llevar consigo, lo que no queda incorporado a la vida que se cuenta uno a sí mismo.

Javier Marias bota a gente no bolso aos domingos no El Pais

Quarta-feira, Maio 27, 2009

xote de copacabana

Eu vou voltar que não aguento
O Rio de Janeiro não me sai do pensamento

Ainda me lembro que eu fui à Copacabana
E passei mais de uma semana sem poder me controlar
Com ar de doido que parecia estar vendo
Aquelas moças correndo
de maiô à beira-mar

As mulheres na areia
Se deitam de todo o jeito
Que o coração do sujeito
Chega a mudar a pancada
E muitas delas vestem
Um tal de biquini
Se o cabra não se previne
Dá uma confusão danada



(Jackson do Pandeiro)

Sexta-feira, Maio 01, 2009

British Music Experience



Durante quanto tempo é possível ouvir uma música preferida? Talvez o mesmo tempo que dê para percorrer o British Music Experience (BME), museu hi-tech sobre a história da música britânica recém-inaugurado em Londres. Como o nome sugere, o BME é muito mais uma “experiência” do que um museu. E vai muito além da exibição de guitarras quebradas em vitrines (embora elas também estejam lá!). Imagine um lugar onde se possa escolher um álbum em uma jukebox touch screen e ouvi-lo por horas, com direito a imagens de arquivo e explicações sobre o disco em uma tela exclusiva. Ou ser transportado, em 3D, para o palco de shows antológicos. Ou ainda fazer uma jam session virtual com Keith Richards, guitarristas dos Rolling Stones, em um estúdio interativo...

... das melhores coisas que fiz em Londres. A materia completa sai domingo, no Jornal do Brasil ;)

Quinta-feira, Abril 30, 2009

repolho



Deeogow, meu companheiro de paixões e brigas, muitas, acaba de me mandar um trechinho de Leite derramado, livro novo do Chico Buarque.

[...] com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve logo ser oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta. O ciúme é então a espécie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, põe nos outros a culpa da sua feiúra. Sabendo-se desprezível, apresenta-se com nomes supostos, e como exemplo cito minha pobre avó, que conhecia o seu ciúme como reumatismo.


Sábado, Abril 25, 2009

O que eu achei de Zii e Zie: uma crítica mais egoísta do que impressionista


Eu já ouvi Zii e Zie o bastante para comentar. A primeira vez foi uma boa surpresa – eu esperava uma decepção. Por motivos pessoais dos quais o Caetano não tem culpa nenhuma: ciúme de uns momentos do show que eu queria que ficassem em junho de 2008. E me confortava pensar que seria uma decepção ouvir e sentir aquilo tudo de novo. Os shows do Obra em Progresso (e eu fui a uns três) já tinham fechado o ciclo, eu podia ficar só com a lembrança. Enfim. Lembro que não gostava de algumas coisas, e de outras muito, e assim é meu estranho amor pelas caetanices. De umas coisas eu gosto muito, é mais eu do eu suporto, e de outras não gosto nem de lembrar. Nada da sua obra me é indiferente. Caetano e David Bowie, eu queria chamar os dois para tomar café da manhã no meu jardim imaginário e conversar horas como se fôssemos eternos. Conversar até acordar no dia seguinte sem saber exatamente como aconteceu. “Caetano, tira a orquídea do sol, por favor, e acorda o Bowie, enquanto eu coloco a água para ferver”.

Mas Zii e Zie: primeiro foi a surpresa boa. Depois eu comecei a pular algumas músicas, e a repetir outras, muitas vezes. Estou curiosa para ver as de Transa no meio dessas no novo show. Aliás, é um disco que deve ser visto. No geral, no entanto, senti pouca novidade. Tem que ter novidade sempre? Acho que sim. ((Estou falando do produto, das músicas sobre o Rio, porque a concepção do álbum, um ensaio aberto num blog, é cheio de generosidade e originalidade)). Nem vou ousar comparar “Zii e Zie” com “Cê” porque não gosto do sentimento de ter que comparar. Não tem que ser melhor, ou pior, são dois discos, duas coisas, duas festas diferentes, um é carnaval o outro aniversário, duas margens com uma ponte novinha no meio: Caetano, sempre mais um pouco.

“Perdeu”: acho que a música mais forte do disco. Um prenúncio do clima de transe que tem todo o show, esse transe sobre a narrativa que atinge o auge com “Incompatibilidade de gênios”. Me agrada muito que ela seja a primeira música e que não termine nunca. Um golpe realista: “O sol se pôs, nasceu, e nada aconteceu”. Ah.

“Sem cais”: linda, linda, a imagem dos versos “seu sorriso bateu aqui, inda posso me apaixonar [...] mar imenso sem cais, tô com medo de ver/ que inda posso ir bem mais” me fazem lembrar o Javier Bardem delirando, no fime ‘Mar adentro”: “Mar adentro, mar adentro/y en la engravedad del fondo/donde se cumplen los sueños/se juntan dos voluntades/para cumplir un deseo/tu mirada y mi mirada/como un eco, repitiendo sin palabras:/más adentro, más adentro”

“Por quem?” segue o que sobrou de força da primeira e leveza da segunda, acho. Ela canta sorrindo? Parece, quando ouço tenho a sensação de que ele canta sorrindo. Mas me dá uma vontadezinha de chorar, e um pouco de agonia.

“Lobão tem razão” é uma boa manchete, mas não uma boa música. Apesar de eu gostar muito da imagem de “o homem é o próprio Lobão do homem/ela só vem quando os mortos somem”.

“A cor amarela” é uma bala de coco. O refúgio baiano nesta crônica carioca que é o disco todo.

“Base de Guantánamo”: acho incrível ter uma música já velha no disco. Ele criticava a Base com um monte de golpes de ritmo (as mesmas armas de "Haiti") antes do Obama ganhar e fechá-la. Obama rocks e Caetano escreve!

“Falso Leblon”: me constrange profundamente, não gosto e pulo. Deve ser implicância por localizar o Rio no Leblon, neste Leblon que é o Rio todo, soa tiozão e superficial. E ainda tem uma rima de “cocaína” com “menina” que o Reginaldo Rossi já cansou há alguns verões.

“Incompatibilidade de gênios”. Delícia. Parece uma resposta aos falsos “odeios” de “Falso Leblon”, porque te coloca de volta no transe. Tem uma psicodelia sobre o que não é samba ainda, mas uma gênese do samba. São tantas camadas sobre a narrativa de Aldir Blanc e João Bosco, em ton-sûr-ton, a raiva vai crescendo com as novas cores da música, não? Minha preferida, disparado.

Aí uma implicância: eu queria saber por que "Tarado ni você" vem depois de "Incompatibilidade...." Não pela contradição temática, mas porque divide o disco em dois. Tira um pé do disco, dá um susto e desmaia, sei lá como explicar. Eu não gosto, não encontro a poesia que ela promete, seu experimentalismo não me faz feliz.

“Menina da Ria”, passo. Pelo meu estado emocional “abroad”, ela não me comove nem me irrita, eu só não quero ouvir nada que tenha este sentimento de exílio ou saudação do estrangeiro agora.

“Ingenuidade”, outra flor, um sambinha doído, como deve ser a tristeza que balança.

“Lapa”: acho que sofre da mesma doença de “Falso Leblon”, mas é mais carinhosa. “Quem projetaria essa elegância solta?”, diz a letra, e eu gosto, senão a Lapa? Quem projetaria essa identificação pela nostalgia, senão Caetano? A Lapa personificada pelo casal ‘Lula e FH’ me parece romantizada. Como a lista de adjetivos e lugares...

“Diferentemente”: Caetano e seus intertextos para quem quiser entrar. Eu gosto muito da música, mais até do que da letra, e acho que encerra bem: “Eu não acredito em Deus”, o último verso do disco, acabou, ponto.